A borboleta vermelha

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Em um lugar longe de qualquer lugar, tão distante no tempo que ninguém poderia lembrar, existia um rei justo, porém impiedoso. O rei tinha uma jovem filha e como toda jovem a menina mantinha sonhos que nem toda a severidade do pai os impedia de existir. Um dia, porém, chegando em seus quinze anos a jovem foi destinada a um príncipe guerreiro do reino vizinho. Como sempre a jovem obedecia ao pai e consentiu em conhecer o homem que a desposaria dali há cinco anos.
Muitos foram os preparativos para chegada do príncipe. Sem muito querer a jovem se arrumou, penteou os vermelhos cabelos e como mandara o pai colocou a roupa mais bonita que havia em seu guarda-roupa. Pouco combinava tamanha beleza com aquele ar único de tristeza, mas obediente ele desceu as escadas e foi para o salão. Um homem alto, de belo sorriso a cumprimentou com os olhos antes que descesse o último degrau. Não soube explicar porquê, mas naquele momento seu coração acelerou. Sentia-se bem, mas ao mesmo tempo mal. Seria aquele o homem que a desposaria? Por um segundo sentiu uma felicidade plena por aquele homem estar em seu caminho. Pouco durou tal felicidade. Ao avistá-la no salão, o rei veio trazendo em seu encalço um homem também alto, porém mais velho e com uma espessa barba pouco grisalha no rosto. Era ele o seu futuro marido. Tentou esconder o desapontamento, mas era evidente que o pretendente não a agradava, mas, ainda assim, era obediente e fez um esforço sobre-humano para abrir um singelo sorriso.
A noite passava lentamente, os ponteiros do relógio pareciam propositalmente atrasar para tornar aquela noite cada vez mais longa. Estava ela entediada ouvindo o pai e o futuro marido conversarem quando se juntou ao grupo o homem que havia visto ao entrar no salão. Ele parecia íntimo de seu futuro marido e entre uma palavra e outra acabou descobrindo que os dois eram irmãos. Desta vez seu sorriso era franco enquanto conversava com o futuro cunhado. Ao notar que a jovem sentia-se bem com seu irmão, o príncipe guerreiro sentiu o ciúme lhe envenenar e antes de partir pediu ao rei que não deixasse que a princesa visse qualquer outro homem a não ser ele e o próprio rei. Para provar sua lealdade, o rei prometeu trancar a filha no quarto até que os cinco anos se passassem.
Ao saber do fim de sua pouca liberdade a jovem chorou e encontrou consolo naquele que um dia seria seu cunhado. Antes de partir ele prometeu voltar e libertá-la do quarto antes que os cinco anos passassem. Ele partiu e a jovem ficou com os olhos brilhantes pensando na promessa que ele havia feito. Todos os dias trancada em seu quarto ela olhava o horizonte e sonhava que ele viria buscá-la. Os anos se passaram e ela se sustentava na promessa. Pouco tinha para fazer em seu espaçoso quarto, a noite ouvia histórias que a dama de companhia lhe contava e no resto da noite olhava as estrelas pela janela até o sono chegar.
Os cinco anos se passaram e a esperança na promessa já não era tão concreta. Sentiu-se perdida e viu que não havia saída. Estava as vésperas do casamento e o rei não aceitaria da filha qualquer desculpa para adiá-lo. Mas um dia antes que a união pudesse acontecer, a princesa ouviu uma história na qual uma poderosa fada realizava feitos fantásticos, bastava apenas ser digno e ter um desejo puro no coração. Quando a dama de companhia foi dormir a jovem sentou-se na cama e pediu com toda pureza do coração uma única chance de se libertar daquele castelo. Pediu durante toda noite sem cessar, até que um pequeno feixe de luz dourado surgiu em sua frente transformando-se em uma mulher de asas delicadas com um longo cabelo negro. A jovem olhou a aparição sem espanto algum e antes que pudesse dizer qualquer palavra a fada em sua frente já sabia o que desejava. Consentiu, porém só poderia libertar seu espírito e não seu corpo. Ela poderia ser livre por dois dias apenas e depois deveria voltar e pousar na boca de seu corpo que ficaria adormecido. Caso não voltasse no prazo, seu corpo não aceitaria mais seu espírito de volta. Parecia perigoso, mas a liberdade, mesmo que por pouco tempo, era algo que lhe seduzia e por isso ela aceitou. De seu corpo saiu um pequeno feixe vermelho que se transfigurou em uma borboleta com asas de mesma cor. Voou sobre seu corpo desfalecido na cama antes de partir pela janela e tentar alcançar a linha do horizonte.
Sabia que era pouco o tempo que tinha, mas queria ter aquele tempo para estar com aquele que um dia lhe fizera uma promessa tão bonita. Voou durante toda noite, viu do alto todo reino do pai. Viu seus cavalos e sentiu falta dos dias em que podia montá-los. Continuou voando até sair das terras do castelo. Viu na madrugada os aldeões começando a trabalhar e antes da tarde chegar ela estava no reino vizinho. Avistou o castelo e voou baixo pelos jardins, mas por mais que procurasse não encontrava quem tanto queria. Entrou por uma janela meio aberta e procurou pelo amado dentro do castelo. Tudo se tornou desespero. Seu tempo se esgotava e ela não conseguia encontrá-lo. Decidiu que já era tarde e precisava voar de volta ao quarto onde havia deixado seu corpo, mas cansada ela parou para descansar sobre uma margarida. Ficou ali quieta admirando o jardim, porém quando menos esperava sentiu algo a puxando pelas asas. Era o príncipe guerreiro, aquele que a desposaria na noite do dia seguinte. Ouvi-o exclamar sozinho que aquele achado era uma raridade, uma borboleta de asas tão vermelhas era o presente ideal para sua noiva. Ela tentou escapar, mas aquelas mãos que a prendiam eram mais fortes do que seu pequeno corpo e sua força para tentar voar. Ele a levou para dentro do castelo e a trancou em um vidro. Tonta ela voava de um lado para o outro batendo nas paredes transparentes, até que cansou. O príncipe montou no cavalo e levou o pequeno presente junto ao corpo.

Ao cair da noite já podia ver o castelo iluminado. Parecia estar tudo preparado para o casamento. Não havia conseguido encontrar a pessoa com quem tanto sonhara durante aqueles cinco anos e agora estava presa e não poderia voltar para o seu corpo. Quando chegou ao castelo, o príncipe encontrou um rei nervoso e preocupado. A filha havia adoecido e nada a fazia acordar do sono profundo em que se encontrava. Para comprovar o que dizia o rei deixou que o príncipe entrasse no quarto da jovem que dormia serenamente. Curioso ao ver o vidro na mão do convidado o rei quis saber o que era, mas quando olharam para o vidro havia apenas uma imóvel borboleta. Estaria morta? O rei abriu o pote e, num susto, a borboleta saiu com batendo fortemente suas asas vermelhas e voou em direção ao corpo imóvel da jovem, mas antes que pousasse na boca de seu corpo adormecido, seu coração viu naquele corpo sua própria prisão: ela desistiu. Quando o pequeno ponto vermelho fugia pela janela, o irmão de seu quase-futuro-marido entrou no quarto dizendo que levaria a princesa com ele. Mas agora já era tarde. Aquele rosto sereno estava gelado e ela jamais levantaria daquela cama outra vez, mas voava, não precisava do corpo, pois seu espírito era livre.


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